Textos
Os Sem-celular
O telefone celular não é apenas um artefato do Coisa-Ruim, assim como a televisão é a Besta encarnada. É um rastreador do governo/alienígenas/palhaços/Grandes Corporações que serve para manter cada indivíduo sob o domínio deles. Via satélite, eles controlam aonde o senhor 9999-9999 vai, o que fala, quanto tempo demora a digerir um rosbife e tudo o que está pensando, inclusive quando, silenciosamente, comemora: “Humm, rosquinhas.”
Tipos de Olhos
Anônimo_Incógnito: Tire os óculos… Deixe-me ver seus olhos…
Menina_de_óculos_escuro: Não sei se é uma boa idéia.
Anônimo_Incógnito: Por que não…?
Menina_de_óculos_escuro: Que tipo de olhos você gosta?
Anônimo_Incógnito: Do tipo sinceros…
Menina_de_óculos_escuro: Não! Quero saber se prefere verdes, azuis ou castanhos…
Anônimo_Incógnito: Os azuis me encantam, os verdes me confundem e os castanhos me comovem…
Menina_de_óculos_escuro: E isso faz você escolher qual deles?
Anônimo_Incógnito: Quando eu olho pro azul, eu quero o azul… Mas quando eu vejo o verde, eu mudo de idéia… Mas aí eu vejo os castanhos e prefiro eles… Isso se não aparecer outro azul…
Menina_de_óculos_escuro: Você precisa se decidir!
Anônimo_Incógnito: Eu me decido… Só que me decido uma vez pra cada olho…
Menina_de_óculos_escuro: …
Anônimo_Incógnito: …
Menina_de_óculos_escuro: Desse jeito nunca vou lhe mostrar meus olhos.
Anônimo_Incógnito: E nunca vai saber minha decisão quanto a eles…
Menina_de_óculos_escuro: Hummm.
Anônimo_Incógnito: …
Menina_de_óculos_escuro: (Tira o óculos)
Anônimo_Incógnito: …
Menina_sem_óculos_escuro: E então?
Anônimo_Incógnito: Tire a lente…
Menina_sem_óculos_escuro: Como sabe que estou de lente?
Anônimo_Incógnito: Porque seus olhos verdes estão tentando me comover…
*E o mundo estará a salvo enquanto não existir lente de sinceridade para olhos…”
Via Anonimo Incognito
Tempo
José Saramago
Volto
Eu volto. Não Eu, esse, que, hoje, sou. Volto outros. Volto o carnaval deles. Volto na quarta-feira de cinzas. Mas não cinzas, dessas. Volto reconstruído.
Alma encantadora
“Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes, a arte de flanar. Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir (…), é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina…”
João do Rio, A Alma encantadora das Ruas, 1905.
Eu Sei…
Anônimo_Incógnito: São pra você…
Ela: Girassóis?! Nunca ganhei girassóis antes…
Anônimo_Incógnito: Eu sei…
Ela: …
Anônimo_Incógnito: …
Ela: E então? Aonde vamos?
Anônimo_Incógnito: Não sei… Não havia pensado nisso… Só queria te ver…
Ela: Então é melhor você começar pensar em algo, se quiser mais do que me ver.
Anônimo_Incógnito: Eu quero…
Ela: …
Anônimo_Incógnito: No entanto, te vejo… E você é linda… Se quiser estimular meus pensamentos, seja feia… Meu raciocínio move-se de encontro ao belo… Diante de você, eles nunca estiveram mais inertes…
Ela: Como você é bobo…
Anônimo_Incógnito: Eu sei…
Ela: Ainda bem que sabe.
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Bem… A gente podia se sentar nos bancos da praça, aqui em frente.
Anônimo_Incógnito: Claro…
Ela: …
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Pronto. Aqui estamos…
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Então, o quer de mim?
Anônimo_Incógnito: Tem que escolher, é…?! Eu estava pensando em ficar com você toda…
Ela: Não, seu bobo… Não precisa escolher não.
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Só queria que me desse uma razão pra querer ficar comigo.
Anônimo_Incógnito: …
Ela: …
Anônimo_Incógnito: Melhor eu partir então…
Ela: Ei ei, aonde você vai?!
Anônimo_Incógnito: Não tenho…
Ela: Não tem o quê?
Anônimo_Incógnito: Razão… Nenhuma razão… Tudo que restou foram os sentimentos desde que a vida me revelou sua existência…
Ela: Bobo! Aquilo foi maneira de falar.
Anônimo_Incógnito: Eu sei…
Ela: E, mesmo assim, fez toda essa graça…
Anônimo_Incógnito: Achei que seria uma cena bonitinha a se fazer…
Ela: E foi… A mais bonitinha que já me fizeram.
Anônimo_Incógnito: Eu sei…
Ela: Sabe, né?! Você sabe de tudo!
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Tem alguma coisa que você não saiba?
Anônimo_Incógnito: Tem…
Ela: ?
Anônimo_Incógnito: Se, com tudo isso, consegui ser único em sua vida…
Ela: …
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Conseguiu…
Anônimo_Incógnito: …
Ela: Realmente não sabia ainda disso?!
Anônimo_Incógnito: Bem… Na verdade, até sabia… Mas é sempre bom ouvir a resposta…
Ela: É. Eu sei…
O quanto nós sabemos é irrelevante… Elas sempre saberão mais… Não só por serem meninas, mas por serem Elas…
Anonimo Incognito
Uma simples discussão
- Às vezes você parece uma…
- Criança. Toda vez você fala…
- Isso. É isso mesmo. Você faz sempre a mesma…
- Brincadeira. Ah, que isso…
- Amor? Não me chame de…
- Amor! Sim, amor da minha…
- Vida. Ah, eu não acredito que a gente tá…
- Brigando de novo. Isso está ficando cada vez mais…
- Normal. Mas é normal um casal discutir de vez em quando, …
- Amor… Agora você quer me chamar de…
- Amor? Sim, você é o amor da minha…
- Vida! É verdade, como a gente pode ser…
- Tão bobo, né? Quer saber? Vamos esquecer tudo e começar de…
- Novo. Igual quando nos…
- Conhecemos em…
- Niterói? Tá…
- Louca, eu? Louco é…
- Você! Não se lembra que a gente se conheceu naquele quiosque em…
- Copabana! É verdade… Ai, desculpa…
- Amor, tudo bem. É por isso que eu….
- Amo quando você me…
- Completa.
Fernando Segredo
Imprevisível – Fabrício Carpinejar
Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público.
Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento.
Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta.
Cometa bobagens. Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens.
Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira.
Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado.
Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas.
Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem.
Procure falar o que não vem à cabeça. Cantarolar uma música ainda sem letra.
Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar.
Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar.
Leve uma árvore para passear.
Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito.
Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida.
Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você.
Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo.
Alterne a respiração com um beijo.
Volte tarde. Dispense o casaco para se gripar.
Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto.
Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes.
Não chore para chantagear.
Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal.
Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade.
O boa-noite ao meio-dia
Na manhã do dia 12 de novembro, Hélia Ladeia, de 50 anos, caprichou. Deslizou para dentro de um elegante tailleur preto, ajeitou as lentes de contato verde-mata-atlântica, aplicou maquiagem e, encarando o espelho, testou o esforço com um sorriso que comprimia seus olhos e lhe tomava metade do rosto. Estava bem. Quem olhasse mais atentamente, porém, veria que a expressão satisfeita convivia com marcas sutis de ansiedade. Hélia, funcionária do Laboratório de Relações Públicas da Universidade Federal de Minas Gerais, era uma das principais organizadoras do evento que naquela quinta-feira trazia William Bonner para falar a estudantes de Belo Horizonte.
Sorriso Frenético
“Um dia um cara saiu de casa para ir pra um acampamento, no meio do caminho ele se perdeu… entrou em um buraco e foi parar dentro da casa do vizinho de um guri que ele não conhecia, quando ele olhou para o lado viu um quadro e disse: muito bonito este quadro, posso cheirá-lo? Cinco minutos depois ele tinha comido o quadro inteiro, olhou para o teto e viu um buraco no chão, subiu no buraco e foi parar no chão de uma estrada de terra que levava ele para perto do longe que ele queria ir, ele saiu correndo e sumiu no meio de um furacão… Foi parar só quando já estava no meio de uma parede, ficou preso na parede até que pintassem ela de lilás… Logo depois ele fugiu para uma gaveta, dentro da gaveta ele viu um cachorro que miava muito alto e lhe dizia: um dia tu indireita para esquerda e perde o rumo… Ele se espantou com aquilo e entrou em um livro que não tinha páginas… Ele vomitou o quadro que tinha comido e comeu o livro sem páginas pensando que fosse fazer com que conseguisse sair da gaveta… Logo em seguida ele se vê fora do mundo, bem perto da casa dele e do lado de um senhor que vendia um papagaio mudo que dizia a todo momento: eu sou mudo, eu sou mudo… Ele não pensou duas vezes e comprou o papagaio por cinco reais, minutos depois ele vendeu o papagaio por sete reais e comprou um burro que o levou voando até o mar sem água de areia que molha, o burro se afogou no mar deixando o homem perdido no meio do deserto aquático… Sem ter o que beber e comer o homem morreu… E no registro de óbito dele constava:
Causa da morte: sorriso frenético.”
Ariano, nasceu em 27 de março de 1985 em Piripiri, Piauí. Graduou-se em Publicidade e Propaganda pela faculdade Ceut em 2006. Louco por publicidade, são-paulino fanático e apaixonado por música. Trabalha com design gráfico, webdesign, edição de vídeos, eventos e outras coisas mais! É viciado em séries e o rádio é o seu veículo de comunicação preferido.